segunda-feira, 1 de novembro de 2010

eu só lamento

Sim, isso é um desabafo. Aviso para que ninguém inicie a leitura sem o devido alerta.

E porque a cada dia aquele tempo se faz mais longe é que convivo com essa dificuldade de me apaixonar por filmes, livros, ideias. Me lembro bem de todos os velhos que sempre disseram que era melhor em seus tempos. Agora sou eu quem quase caio na tentação de dizer o mesmo.

Não, eu não posso acreditar que nada mais de bom é feito, é pensado, é produzido. Não posso acreditar que essa classe de pessoas com seus 20 e poucos foi resumida a uma gentinha egoísta, individualista e com preconceitos capazes de corar até meu avô. Não, eu não defendo que todos tenham um ideal, rompam com algo, passem seus dias tocando violão, fumando maconha e falando de política. Que casem com 20 anos ou vivam de sexo casual até os 40. Gostem de sertanejo universitário, Restart e micareta ou de heavy metal e música erudita. Cheirem, fumem, tomem açaí ou vivam de luz.

O que não dá para entender é como depois de tanta gente ter feito tanto pela liberdade de expressão, pelo direito de amar de qualquer forma, pelo direito da mulher ascender, do gay assumir, do cara ser bailarino e da mina ser engenheira. De haver eleição livre, imprensa sem censura, escola e internet para um monte de gente, as declarações mais tacanhas, preconceituosas e ignorantes partam justamente deles, que, em tese, são o tal do "futuro".

Eu queria muito que alguém contasse para a mocinha da Faap (ou instituição semelhante em mensalidades e público alvo, não quero ser preconceituosa também) que ela só pode dar para qualquer um sem ninguém ter nada a ver com isso porque um monte de portadoras de XX lutaram um bocado por esse direito. Ela pode dormir com o namorado em casa porque outras tantas brigaram para que meninos e meninos fossem criados de forma mais semelhante, com os mesmos direitos em casa e na rua. Que talvez os pais dela mesmo tenham feito parte disso. E que carro do ano, intercâmbio e prótese de silicone só deveriam ocupar parte de seus pensamentos e não serem objetivo de vida.

Alguém conta também para esse malhadinho com a garrafinha de creatina na mão que a mãe dele é tão mulher quanto a puta que ele pagou no fim de semana (com a mesada, imagino). Que aquela senhora que sempre cuidou tão bem dele enquanto a mãe ia à manicure talvez seja nordestina. Que o executivo da multinacional alemã onde ele sonha trabalhar talvez seja gay.

Eu também queria que o distinto senhor, doutor, se informasse melhor antes de inventar coisas. É tão 1989 essa história de que o PT vai por uns pobres para morar na sua casa.... Conta para ele porque exatamente ele conseguir ir umas 3 vezes para Nova York, outras para Europa e umas 10 para Buenos Aires nos últimos anos. Conta também porque agora ele tem uma BMW e não mais aquele sedanzão nacional. E como foi fácil mandar os mais velhos para o intercâmbio e o caçulinha para Disney.

Eu realmente lamento que muitos membros da geração 60 e 70 não tenham conseguido (esqueceram será?) passar para seus filhos toda a paixão que é preciso ter para ser jovem, os valores de bem comum e o quanto é bom querer de verdade alguma coisa. O quanto é sadio questionar regras, pessoas e instituições. O ar é mais leve quando a gente é jovem, mas agora são eles que estão deixando o meu, que já não sou mais tão jovem assim, quase irrespirável.

7 comentários:

Andreia Pires disse...

clap.. clap.. clap..
pro inferno o preconceito em todas as formas que se apresente. repúdio total ao posicionamento dessa parcela da 'juventude', pra mim, perdida e irrecuperável. que Deus nos ajude no 'futuro' que nos aguarda. como é bom envelhecer...rs
abraços

Cassio disse...

Parabéns! Excelente texto, já li 3 vezes e coloquei nos meus Favoritos.
Que alívio ver que existe vida inteligente na Web.
Parabéns entusiasmado!
Cassio

dima disse...

muito obrigada, pessoal!

Thiago Mantovani disse...

O Badô passou esse seu post por Facebook e tenho que admitir: foi a melhor coisa que aconteceu nesta quarta-feira. Você conseguiu expressar o mesmo sentimento que está engasgado em mim. Pra deixar claro, eu votei no Serra na eleição e não me arrependo. O duro é olhar pro lado e ver quanta gente hipócrita votou nele tb. Isso me enoja. O preconceito só faz retroceder. Parabéns pelas palavras!!!

Alexandre Versignassi disse...

Adorei. O problema é que as coisas que instigam os preconceitos são instintivas. Voltam sempre. Só se muitas, muitas gerações trabalharem pesado vai dar pra acabar com isso. Nosso netos não vão ver o resultado. Mas vão trabalhar tb. E uma hora a coisa acaba!

dima disse...

Tomara mesmo que um dia acabe. O que é estranho é como parece que retrocedemos... Fica a indignação.

E Tiago, é isso mesmo. A questão é bem menos posição política. É uma postura moral, de valores, que as pessoas resolveram tornar pública como se isso fosse motivo de orgulho.

Dani Oliveira disse...

Engraçado como se fala de preconceito aqui instigando novos: contra "a mocinha da Faap" e "o malhadinho da academia". É fácil exaltar e defender os grupos excluídos (as putas, os gays, os nordestinos) e apontar o dedo para novos grupos. Seu texto é pura hipocrisia. Quem se considera tão jovem de espírito e idealista acabar fazendo uma simples transferência de preconceitos enquanto se acha muito questionador é, no mínimo, inocente. Depois de "cair" por acaso aqui no seu blog, eu devo dizer que, também, só lamento.